sexta-feira, 19 de setembro de 2014

RESQUÍCIOS VERGONHOSOS

             O grande amigo Mário Werneck, ilustre advogado e professor das Alterosas, costumava dizer, na época em que fazíamos o mestrado em Direito, que um país que passa por uma ditadura, demora, pelo menos, o dobro do tempo que ela durou para se restabelecer plenamente em termos democráticos. A vergonhosa ditadura do Brasil iniciou-se em 1964 e terminou oficialmente em 1985.
                Pelas contas do Mário, portanto, ainda precisaremos de mais treze anos para restaurarmos plenamente nossa democracia e os efetivos pilares do estado democrático de direito estampado em nossa Constituição da República. Parece, no entanto, que alguns resquícios da ditadura ainda impregnam nossa sociedade de forma bastante eloquente, o que pode adiar indeterminadamente o processo de plena redemocratização. Destaco entre eles, a prática e a tolerância com a tortura, alguns políticos “filhotes” da ditadura ainda em cargos públicos e a cultura da delação e da ameaça, objetos estas últimas da presente coluna. O roteiro a seguir merece reflexão.
                Corta para uma sala de aula de uma escola em Cacoal: a professora escreve no quadro, de costas para a turma, enquanto um dos alunos (ou alunas) lança sobre o quadro o facho de uma caneta laser. A professora se vira e pergunta a todos: “quem está fazendo isso?” Não há resposta, por óbvio (pausa para palmas da plateia). Não satisfeita, a “educadora” lança mão do absurdo: “se não disserem quem é, todos receberão advertência por escrito endereçada aos responsáveis.” Nada (mais palmas). Parênteses: o signatário gostaria de mandar uma notificação aos pais desses alunos parabenizando-os. Volta na “professora”, que, não satisfeita com seu arroubo ditatorial, dispara: “então todos vão perder dois pontos em duas matérias!” Chantagem ainda por cima. Os bravos alunos se mantiveram firmes (mais palmas). Estamos diante de um grave escândalo pedagógico.
                Não parou por aí a sanha de agente do DOPS da “educadora”. Volta nela: Quem não assinasse uma tal lista deveria se dirigir à sala da orientadora, que, aparentemente, corrobora com os métodos da “professora”. Ora, que espécie de pedagogia é essa para crianças de onze anos? Que cidadãos pretendemos formar? Que métodos são esses? Estão educando às avessas? Quais são os valores perseguidos? Sou professor há onze anos, posso falar com propriedade. Ademais, julga-se muita vez, com base em premissa absolutamente equivocada, que violência é só ofensa física. Grave engano. A ofensa psicológica e a violência intelectual podem causar danos tão profundos quanto. Precisamos voltar com o slogam “abaixo a ditadura”? E em uma escola de ensino médio?
                Note-se que, além de ameaçar gravemente quem não denunciasse um colega que, convenhamos, não fez nada grave, ainda procurou impor como certa a conduta delatória, à maneira como fazia o exército com aqueles contrários ao regime da época, prática que tanto se condena. Será que ainda não conseguimos nos livrar dos dedos-duros? Ou estamos criando novos, “facilitando” a busca sobre os fatos? Ou talvez ainda existam nas escolas muitos extemporâneos simpatizantes do golpe militar.
                Felizmente, a indigitada “professora”, não obteve êxito em seu surto ditatorial e antipedagógico. Os alunos, em postura admirável, permaneceram inertes diante de suas ameaças e ainda, em uníssono, reclamaram da possibilidade de serem advertidos por se recusar a ter uma conduta das mais repugnantes. Certíssimos. Quem merece uma advertência cabal é a professora, sem dúvida. Aos alunos, os nossos mais sinceros elogios. Sempre ouvi em casa (e aprendi), desde pequeno, que um dos maiores crápulas sociais é o dedo-duro. Não “dedurar” é imperativo ético.
                Corta agora para a campanha presidencial: o assunto palpitante do momento é uma delação premiada (sic) de um criminoso preso (haja credibilidade!) que lançou à luz uma série de nomes ao seu próprio alvedrio, sem apresentar até o momento provas concretas da participação daqueles em episódios de corrupção na Petrobras.
                A imprensa golpista e denuncista adorou, amplificando suas palavras e incentivando sua propagação e infiltração entre os brasileiros para prejudicar a presidenta Dilma e Marina Silva. Não conhecem a presunção de inocência nem o devido processo legal. Ou, se conhecem, só usam quando interessa. Essa imprensa sempre foi simpática à ditadura. Nada mais óbvio, portanto. O que seria louvável é que esses jornalistas tivessem uma aula com os alunos de onze anos de uma escola de Cacoal, que repeliram o resquício do “dedodurismo” e da ditadura e preferiram o estado democrático de direito.

P.S. As coisas podem mesmo piorar. Os professores dessa escola foram autorizados (por algum ignorante) a tomar e rasgar trabalhos de alunos que estejam sendo realizados na aula de outra disciplina. Caso algum “professor” siga está criminosa ordem, o signatário sugere seja dada voz de prisão imediata por roubo. Esses são os nossos educadores...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

MARINA? NÃO, NÃO!

             Não preciso de motivos para não votar em Marina Silva uma vez que já tenho candidata. Mas, mesmo assim, posso apresentar vários. Nem o maior dos fatalistas poderia imaginar a trágica morte de Eduardo Campos no momento em que a campanha (real) começava. Nem tampouco a gigantesca comoção que tal fato causou no eleitorado brasileiro, catapultando Marina a um imprevisível empate com Dilma já no primeiro turno. Peças que o destino prega. Não é o primeiro jogo de dados dessa natureza. Jânio e Collor também se alçaram pelo acaso. E sabemos no que deram.
                Imponderável à parte, Marina assumiu a cabeça da chapa e impõe, despoticamente, como é do seu feito, seu confuso programa de governo e suas ideias pessoais, mesmo que no projeto não se incluam e, ao cabo, cortou alianças costuradas por Campos com a frieza de um predador feroz. A candidez e a imagem simples que tenta passar não combinam tanto com a Marina dos bastidores, impositiva, intransigente e, às vezes, fundamentalista. É bom que se adiante que Marina Silva não é o José Mujica (presidente do Uruguai) à brasileira. No entanto, o brasileiro não está acostumado a se aprofundar nos assuntos que mais deveriam lhe interessar. Prefere absorver a indignação seletiva e a beatificação oportunista promovidas convenientemente pela mídia conservadora.
                A imagem de santa de Marina não convence. Seu jeitão de “pobrezinha” é artificial. Ela encheu as burras de dinheiro nos últimos anos proferindo palestras pelo país. Mais de um milhão e meio de reais! Um ervanário invejável, bancado por quem? Marina não revela. Triste, pois abre espaço às piores elucubrações. Dentre os “clientes” comprovados está o Credit Suisse e o Banco Itaú. Não há nada errado em se fazer palestras e em cobrar por elas. Só muda se quem estiver pagando forem potenciais interessados em um mandato futuro. Diga-me se andas com banqueiros que te direi quem és.
                O Brasil não é um paraíso fiscal, Meca dos sonegadores internaconais, mas é um paraíso bancário, porto seguro e feliz das instituições financeiras estranguladoras de “clientes” e dos rentistas. Em poucos lugares do mundo os bancos lucram tanto como aqui e recebem pagamentos tão generosos de dívida pública como aqui (duzentos bilhões de reais por ano!!!). Nossos juros são os maiores do mundo. Nada melhor, pra eles, lógico. Diante desse quadro, seria imperiosa uma revisão desta desproporção lucrativa e de seu rastro avassalador. Ocorre que a coordenadora da campanha de Marina Silva é banqueira...
                E não só isso. Neca Setúbal, como é conhecida a herdeira do banco Itaú, responsável também pela área econômica do programa de governo, deveria responder por um papagaio tributário da ordem de 18 bilhões de reais (quase uma Copa) resultado do calote que a união sofreu quando da compra do Unibanco pelo banco da família de Neca. Ela ainda não disse palavra sobre isso. Se a “pergunta do milhão” da TV já é sedutora, imagine a de 18 bilhões. Aguardemos, alijados da verdade, como sempre. Mas quando o assunto é autonomia do Banco Central ela é a primeira a defender (e a confirmar) a ideia. Muito conveniente.
                Marina significa o retorno ao neoliberalismo (Estado mínimo, câmbio flexível, juros ao sabor do mercado etc), aquilo que há de pior e de mais nefasto na política econômica. Para os pobres, bem entendido. Para os ricos rentistas é, como já dito, o paraíso. O que impulsiona a economia sonhada por seus pares é a desigualdade. Mais um ponto pros ricos, cada vez mais ricos. Adeus, justiça social, definitivamente. Não custa lembrar que o Brasil demorou séculos para se preocupar efetivamente com os pobres e, sobretudo, os miseráveis. Acho que não colou... Não dá pra imaginar que Marina seja tão ingênua a ponto de supor que ao entregar o país ao mercado ele será bonzinho. Retrocesso social é proibido constitucionalmente. Deveria ser também moralmente...
                Marina diz que não transige em assuntos ambientais ou de doações à campanha por empresas que ela considera “do mal”. No entanto, quando o tema é religioso, ela parece sucumbir. Foi assim no lamentável episódio envolvendo o destemperado fundamentalista evangélico Silas Malafaia (difícil adjetivar esse senhor). Positivamente então, acho que não consigo. Mas ele mostrou seu insidioso poder e dobrou a candidata em poucos tweets. Foi só esbravejar na internet quanto ao conteúdo do programa dela em termos de direitos dos homossexuais que Marina arrefeceu e mandou alterar tudo. Silas é teocrata, o que já revela seu perigo. Marina seguiu sua cartilha.
                O ambientalismo tão apregoado por Marina também soçobrará inegavelmente diante de seu projeto econômico. Qualquer estudante do ensino médio com o mínimo de noção sobre ecologia sabe que não fecha a equação do desenvolvimento sustentável e da postura política neoliberal exploratória e predatória. Ela prometeu uma “ressignificação” desses conceitos. Não explicou o neologismo nem muito menos a fórmula mágica. Eduardo Gianetti e André Lara Resende serão os Malafaia econômicos do ambientalismo de Marina. Se assumir a presidência, mudará o discurso em poucos meses.
                Marina pesa a mão se valendo da responsabilidade da presidenta no episódio da Petrobras após uma delação premiada, mas pede que não se “mate” novamente Eduardo Campos, relacionado na lista de suposto beneficiários de propina. A candidata precisa  calibrar sua opinião sobre esse ( e outros) assuntos dos quais não é possível se analisar com dois pesos e duas medidas. Sobram indecisão e incoerência.
                Ademais, Marina já está sendo enredada pelas malignas teias de Fernando Henrique Cardoso, o político mais cínico da história do Brasil e jihadista declarado contra o Lulo-petismo. Um dos “intelectuais” dessa gangue, Diogo Mainardi, já acenou que “é Marina, mas só até a posse, mostrando claramente a intenção deles. O ex-presidente já deixou Aécio à míngua, bandeando para o lado da candidata do PSB. Visa ao poder a qualquer custo na guerra que decidiu travar. Que se danem os aliados.

                Haja boa companhia, como se já não bastassem Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes. Marina seduziu os grão tucanos por que é a cara deles. Só falta agora o Lobão, ícone da “genialidade” das redes sociais. Não há nem haverá “nova política” com Marina Silva. Seu programa de governo, além de obsoleto, é vago e contraditório. É impossível “governar com todos” conforme ela presume e propala. Será o retorno do tucanato e do nefando neoliberalismo, dessa vez disfarçado na cândida imagem de uma presidenta com jeito de santa e pecha de novidade. Nada mais conveniente.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

“DEFENDEREI OS VALORES DA FAMÍLIA”. MAS DE QUE FAMÍLIA?

            Chama a atenção o número de candidatos, aos mais diversos cargos eletivos, que pregam como lema de campanha a “defesa da família” ou, ainda mais específicos, “a defesa dos valores da família”. Diante disso, vale a pergunta: Que espécie de família estão anunciando seus ferrenhos defensores? O tema desafia uma análise, sobretudo de ordem constitucional, mesmo que de forma breve, do que se entende juridicamente sobre a família (ou famílias) nos tempos atuais.
                Não precisa muita perspicácia para reparar que a família à qual esses candidatos se referem é a família da visão conservadora (ou reacionária), com bases amplamente religiosas e fundadas em ideias arcaicas. Pugnam por valores unilateralmente escolhidos para caracterizar aquilo que entendem por família e assim angariar eleitores, bem como muitos desses candidatos (pastores, notadamente) já fizeram em suas igrejas. Distanciam-se dos mandamentos constitucionais e almejam a implantação de uma nociva teocracia.
                Descolam sua visão, outrossim, de que a família moderna (ou pós-moderna) não tem cariz exclusivamente religioso ou base novecentista e sim, e sobretudo, matriz e proteção constitucionais. Seus alicerces não estão fundados em ordens conservadoras e reacionárias. Muito ao contrário, aliás. Os fundamentos constitucionais da família, são o afeto, a ética, a solidariedade e a dignidade, valores de raiz constitucional e humanista, indiscutivelmente. O reconhecimento jurídico do que é família, merecedora de especial proteção do Estado, como dispõe nossa Carta Magna, se dá com base nessas premissas.
                Note-se que a falta da leitura constitucional do que significa juridicamente a família e de quais entidades podem ser assim reconhecidas, torna míope a visão desses candidatos que insistem em considerar como família e, via de conseqüência, como única permeada por valores que devam ser protegidos, apenas aquela família conservadora, calcada no matrimonialismo, no patriarcalismo, na hierarquização, na heteroafetividade, e ao considerar a família (deles) uma instituição fim em si mesma.
                Cumpre informar que a família atual possui novos paradigmas, alguns até incompatíveis com as características da família “defendida” na campanha eleitoral. Hodiernamente a família é pluralizada, sendo reconhecidas novas entidades familiares, tanto de modo expresso na própria Constituição da República (união estável e monoparental) como judicialmente (homoafetiva, anaparental, mosaico entre outras).
                Além disso, perderam a rigidez hierárquica e a desigualdade interna, bem como ganhou espaço inexorável em seu seio a socioafetividade. A família deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser um instrumento para o desenvolvimento de seus membros, independentemente de sua conformação ou do sexo de seus componentes devendo, inclusive, atender à sua função social e sofrendo com mecanismos de intervenção pública em caso de descumprimento.
                Essas novas famílias (ou mesmo as antigas com nova formação) entram também na pauta da campanha desses candidatos que defendem os “valores”? Aparentemente não, o que expõe, às escâncaras, o viés preconceituoso e o conservadorismo que o direito não se presta a manter, felizmente. Convém ainda lembrar a esses incautos apóstolos da moralidade e dos supostos (“reais”) valores da família, caso eleitos, o princípio da proibição do retrocesso, informador do direito constitucional da família, que não admite que conquistas já reconhecidas e sedimentadas sejam apagadas.

                Portanto, defender a família e seus valores dentro dessa nova perspectiva, vai muito além do que supõem esses arautos de uma duvidosa ética familiar e de um modelo ”padrão” de família. E o direito já vem fazendo essa defesa de há muito. Os “verdadeiros valores” da família não estão se desfazendo como pregam. O difícil, para muitos, é perceber (e aceitar) que as coisas mudam. Seria imperioso que postulantes a cargos públicos conhecessem um mínimo do Direito antes de anunciar suas “propostas”.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

'AERO' NEVES

               Tucanos, como a grande maioria das aves, voam. Os tucanos da política brasileira – apelido auto-escolhido pelo PSDB – há tempos deixaram o fio dos muros (quando perderam o governo) e passaram a realizar muitos voos, normalmente de ataque, quase sempre infundado, odioso e irresponsável, contrariando a própria natureza do animal, pacato e quieto. Coisas da política.
                Em Minas Gerais os voos tucanos, na humana acepção da palavra, ou seja, por intermédio de aeronaves, se mostraram extremamente confortáveis, sobretudo para os parentes do ex-governador mineiro e candidato tucano à presidência Aécio Neves. Foi descoberta a construção, com recursos públicos, na modesta cidade de Cláudio, onde têm fazendas, de um aeroporto, “administrado” pela família do ex-governador. A “chave” do local (público) fica sob os cuidados de um tio de Aécio. Incrível...
                Não bastasse o, no mínimo suspeito, aeroporto da pequena Cláudio (25.600 habitantes em 2010 segundo o IBGE), de insondável importância pública e em que foram gastos quatorza milhões de reais (!!!), foi ainda descoberto que, também com verba do estado, foi erguido um outro no menor e menos conhecido município de Montezuma (7.400 habitantes em 2010 segundo o IBGE), também em Minas. Em comum entre os dois, além da desnecessidade evidente, há o fato de que nesta cidade a família de Aécio também possui propriedades.
                A impessoalidade é princípio constitucional da administração pública, assim como a supremacia do interesse público sobre o particular. Aécio parece (ou finge) não saber disso. As Minas Gerais, por essência e por natureza, nos presenteiam eventualmente com “preciosidades”. Tais escândalos, assim como o ‘mensalão mineiro’, pai do outro ‘mensalão’, que eles tentam abafar, demandam uma explicação cabal, antes que essas práticas se transfiram para o plano nacional. Felizmente a vitória dos tucanos nas eleições presidenciais é improvável.
                Depois de mais de dez dias de silêncio (talvez na espera de ouvir de alguém o que deveria dizer sobre o fato) o ex-governador se manifestou e disse que realmente usou o aeroporto de Cláudio umas três ou quatro vezes. A indefinição no número e a conhecida cara de pau do político podem nos deixar elevar as marcas a utilizações maiores. Ele se defendeu, julgando a situação como um “equívoco” de sua parte. Curioso, quando a falha ou o ilícito é cometido pelos outros candidatos ele chama de escândalo...
                Tais “realizações” trouxeram à lembrança do signatário um fato passado aqui. Cheguei a Cacoal há sete anos e me lembro do empenho e da luta da COPAHRC para que tivéssemos um aeroporto em nossas paragens, afinal, somos uma das maiores e mais importantes cidades de Rondônia. Demorou muito, exigiu esforços hercúleos, mas saiu. Acaso o senhor ‘Aero’ Neves ou sua família possuíssem propriedades por aqui, talvez as dificuldades tivessem sido bem menores.
                A falta de propostas e de programas da oposição vai transformar a campanha dos tucanos em um vendaval de ataques, já que não têm nada pra apresentar e contam com o suporte dos impérios da mídia. Agora, com um telhado de vidro como esse, vai ser difícil sustentar o contragolpe. Talvez seja a hora de repensar a estratégia e tentar apresentar uma agenda e um programa para o país. O povo não é tão idiota quanto eles pensam.

Obs: a citada fazenda em Cláudio já foi flagrada em 2009 com trabalho escravo. Nada mal para um postulante à presidência de um país...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ARIANO, A ESQUERDA E A DIREITA

               Como a grande maioria da população não lê praticamente nada (parece ter uma verdadeira ojeriza a livros, anoto), não teve o devido destaque e, via de consequência, o devido lamento e a tomada de consciência do risco da falta de substitutos, a morte, com diferença de poucos dias, de três gigantes da literatura brasileira: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.
                Suassuna ainda angariava mais admiradores modernos, sobretudo por sua singular verve irônica, pelo Auto da Compadecida (famoso na TV) e pela associação com o futebol, nada muito literário, infelizmente. Mas tanto ele, quanto os outros que também se foram, têm muito mais coisa boa para se conhecer. E é sobre um texto de Ariano Suassuna que se irá comentar, até mesmo à guisa de homenagem, pois, como acontece normalmente com os clássicos, está cada vez mais atual.
                É comum se dizer que não existe mais esquerda e direita. Quem diz isso normalmente é de direita e é, sem dúvida, um subterfúgio para se fugir da discussão, esvaziá-la e tentar se igualar todo mundo. E está absolutamente errada essa ideia. Pode não haver mais entre partidos políticos as divisões entre esquerda e direita, já que se transformaram em clones uns dos outros, guiados muito mais por interesses internos (escusos) do que externos, contrariando sua essência de representatividade e seu papel instrumental.
                Há ainda, sem dúvida, e como muito bem delineou Suassuna, homens de esquerda e de direita, independentemente de partidos ou da prática política. Os ideais permanecem. Com um viés religioso, mas inteligente, para analisar, o autor paraibano leva em conta a questão da justiça com os desvalidos para separar esquerda e direita, com óbvia desvantagem, por sua própria essência, para esta última.
                Ariano afirma que “Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva. De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”.”
                E conclui, de forma magistral: “no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.”

                A grande diferença matricial entre esquerda e direita está justamente nisso. Enquanto a direita luta pela liberdade (em sentido amplo), a esquerda luta pela liberdade aliada à igualdade. Não há liberdade na diferença. Não há aferição de mérito na disputa entre desiguais. Não há justiça sem as mesmas condições para todos. E, ainda, não há mais a Casa Grande e a Senzala. É essa a essência da esquerda, não dos supostos partidos de esquerda. E é isso que as pessoas teimam em não querer enxergar, ou, propositalmente, por uma contaminação midiática, preferem confundir. Obrigado, Ariano Suassuna. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O LEGADO DO COPA

                 O Hotel Copacabana Palace, inaugurado no Rio de Janeiro, na praia que lhe dá nome, na década de 1920 é o hotel mais famoso da América Latina e um dos mais famosos do mundo. Já recebeu em seus cômodos ícones mundiais como Mick Jagger, Walt Disney, Santos Dumont, José Saramago, Princesa Diana e inúmeros outros. Já foi cenário de filme, de show e de incontáveis encontros. Foi erguido pela tradicional família Guinle e recentemente vendido a uma rede internacional de hotéis.
                O local representa uma das (mais belas) imagens do Rio de Janeiro e do Brasil no exterior. Sinônimo de glamour e sofisticação, inspirado nos melhores hotéis do planeta, o Copa, como é conhecido, sempre se destacou tanto na paisagem quanto na alma do bairro, da cidade e do país, sempre impressionando por sua grandeza, arquitetura e estilo próprios, acalentando sonhos e angariando admiradores.
                O signatário sempre foi um desses e sempre conservou uma imensa vontade de usufruir de seu espaço mesmo que por um curto tempo. Com efeito, decidiu na semana passada, já que estaria no Rio de Janeiro, cometer a extravagância de passar ao menos uma noite no Copacabana Palace, muito bem acompanhado, anote-se. E não houve qualquer decepção, muito ao contrário. Vale mesmo o quanto pesa, ou melhor, nesse caso, o quanto cobra.
                Desde a chegada à belíssima entrada, passando pelo suntuoso hall até se alcançar a recepção onde o tratamento incomum já mostra a qualidade superior do lugar e a distnção que dá a seus hóspedes. São dois prédios em estilo clássico (principal e anexo) e uma esplêndida piscina aquecida cercada por três restaurantes com diferentes especialidades. Há ainda um spa completo. Na praia em frente é oferecido serviço de guarda-sol, espreguiçadeiras e segurança.
                Os quartos são impressionantes e até difíceis de descrever, aliando extremo luxo e conforto a uma incrível beleza e a uma gratificante funcionalidade, desde os mais simples (se é possível se chamar assim) até os mais luxuosos, como a suíte presidencial com mais de 100 m2 e uma vista deslumbrante. Lamentavelmente, devido ao horário do voo para Cacoal, não foi possível degustar o café da manhã.
                Há coisas que se deve fazer ao menos uma vez na vida. Hospedar-se no Copacabana Palace é uma delas. As lembranças são um verdadeiro legado para se guardar para sempre.

CUSPIDA NA CARA: Não satisfeita com a humilhante derrota por 7x1 para a Alemanha, a indefinível cúpula da CBF reconduziu o nervosinho e incompetente Dunga ao cargo de técnico da seleção brasileira. É cuspir na cara e na inteligência do povo, mostrar que não estão nem aí e que o que vale é o interesse da ‘paneinha’.
                 Até as pedras da calçada do prédio da entidade já haviam percebido que era a hora de se experimentar um treinador estrangeiro e que era óbvia a necessidade de reformulação geral do futebol nacional.  Mas trazer de volta alguém que já provou sua incapacidade, mostra por onde e para onde vai o esporte do qual um dia já fomos o país. Mostra também que não aprenderam nada com a acachapante goleada.

VITÓRIA EM CRISTO: Foi revogada, felizmente, a desprezível e injustificável proibição da Arquidiocese do Rio de Janeiro em autorizar a exibição da imagem do Cristo Redentor do Corcovado em um filme. Além da censura pura e descabida, traz à discussão o fato da estátua do Cristo “pertencer” à igreja católica local.
                O monumento foi eleito como uma das maravilhas do mundo moderno e é um símbolo não só da cidade do Rio de Janeiro, mas também do Brasil. E limitar a divulgação da imagem da estátua ao que a Cúria entenda “apropriado” é retirar dos verdadeiros donos, o povo brasileiro, a possibilidade de se deleitar com sua exposição.
                É bom que também se ressalte que o Cristo do Corcovado possui uma imagem própria, a “abraçar” os cariocas e os turistas que visitam a cidade. Não tem aquela imagem usada e explorada pela igreja (que pode ficar pra ela) de um ser humano açoitado, em frangalhos, pendurado em uma cruz, que, particularmente, não me agrada em nada. O Cristo do Rio é a cara da cidade, acolhedor, suave, simpático e não pode ficar nas mãos de meia dúzia de religiosos.


HOMO SAPIENS: “mesmo sendo de esquerda, dá pra apreciar a arte de viver da direita”. Jean-Paul Sartre, filósofo francês, após se hospedar no Copacabana Palace.

terça-feira, 10 de junho de 2014

VAI TER COPA



                A afirmação que compõe o título da coluna é absolutamente dispensável, por óbvia. Ninguém duvida de que vai ter Copa. Certamente não a Copa prometida, com o aguardado “legado”, mas vai ter. Desde 2007, aliás, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 era certo de que teria copa por aqui. Um discurso de protesto (até certo ponto bastante pertinente) cunhou a expressão (às vezes usada de maneira fascista) ‘não vai ter copa’, mas nem de longe se imaginou, com o mínimo de razoabilidade, sua efetividade.
                Vai ter Copa sim, é claro, assim como é claro, desde 2007, que vamos fazer um evento para gringos, com estrutura temporária para eles, vendendo parte de nossa soberania para a FIFA e deixando muito pouco de bom para os brasileiros. Mas isso tudo também já era esperado. Tudo por aqui é assim e temos um exemplo exponencial e deveras semelhante: o Panamericano de 2007 no Rio de Janeiro. Gastaram-se bilhões, da mesma forma, mas de bom desse evento não sobrou nada. Basta ver que tudo terá de ser refeito para as Olimpíadas de 2016 na mesma cidade.
                “Padrão FIFA”? Não, claro que não. Virou jargão e também grito de guerra em protestos a exigência de um “padrão FIFA” para diversos setores de serviços públicos do país, supondo que seria o “padrão” ideal. O Brasil nunca será um país “padrão FIFA”. Com Copa ou sem Copa. Aliás, o Brasil não melhora nem piora por causa da Copa. Não é por culpa do evento que estamos assim e também não é o primeiro (nem o último) evento que faremos assim, com o “padrão Brasil”: corrupção, fraudes, exploração, atrasos, maquiagens etc. Esse é o nosso “padrão”, infelizmente.        
                Já faz algum tempo, por outro lado, que o futebol deixou de mover o país. Temos muitas outras preocupações, tanto de ordem pessoal quanto de ordem coletiva. A Copa vai nos envolver enquanto a bola estiver rolando já que é um evento cativante, de fato. Mas acabando, com o Brasil campeão ou não, voltaremos aos nossos afazeres, tarefas, deveres, problemas etc. Esses não são possíveis de serem resolvidos assim, com Copa, sem Copa com “padrão FIFA” ou sem “padrão FIFA”. A vida de hoje não segue padrões e não se rende a eventos pontuais.
                Diante disso, é importante também salientar que, ao contrário do que afirmam alguns oportunistas/ineptos, o resultado do torneio de seleções não alterará em nada a disputa eleitoral desse ano. É ainda tachar o brasileiro de imbecil supor que um fator - tão diminuto e tão irrelevante do ponto de vista pessoal e mesmo em termos nacionais - possa determinar os contornos de algo tão importante como o futuro do país em ano de eleição presidencial. Esse motor eleitoral pertencia à ditadura. E nem naquela quadra deu certo.
                 Foi-se o tempo em que se associava futebol a política como algo determinante. Repetindo: os nossos problemas não melhorarão nem piorarão com a seleção ganhando ou perdendo a copa. Já o resultado de uma eleição de tais dimensões como a de 2014 mexe bastante com eles. Torcer e votar são coisas absolutamente diferentes. E o brasileiro já sabe disso de há muito.
                Ademais, protestos legítimos têm de existir sempre, seja durante a Copa ou após. O brasileiro sempre foi muito passivo e assistiu, submisso, à venda do nosso país com a privataria tucana, à corrupção desenfreada de épocas imemoriais, às maiores taxas de juros do mundo, à falta de políticas públicas eficazes em diversos setores; é até hoje enganado pelos exorbitantes pagamentos que o poder público faz aos bancos (o que faz com que falte dinheiro para o país, realmente), e se curvou à contumaz pressão conveniente da mídia em favor de seus preferidos. Espero que tenha chegado a hora de abrirmos o olho, ou, usando outro clichê dos protestos: “o gigante tenha acordado”. Seria o melhor legado que Copa poderia nos deixar.