sexta-feira, 8 de agosto de 2014

'AERO' NEVES

               Tucanos, como a grande maioria das aves, voam. Os tucanos da política brasileira – apelido auto-escolhido pelo PSDB – há tempos deixaram o fio dos muros (quando perderam o governo) e passaram a realizar muitos voos, normalmente de ataque, quase sempre infundado, odioso e irresponsável, contrariando a própria natureza do animal, pacato e quieto. Coisas da política.
                Em Minas Gerais os voos tucanos, na humana acepção da palavra, ou seja, por intermédio de aeronaves, se mostraram extremamente confortáveis, sobretudo para os parentes do ex-governador mineiro e candidato tucano à presidência Aécio Neves. Foi descoberta a construção, com recursos públicos, na modesta cidade de Cláudio, onde têm fazendas, de um aeroporto, “administrado” pela família do ex-governador. A “chave” do local (público) fica sob os cuidados de um tio de Aécio. Incrível...
                Não bastasse o, no mínimo suspeito, aeroporto da pequena Cláudio (25.600 habitantes em 2010 segundo o IBGE), de insondável importância pública e em que foram gastos quatorza milhões de reais (!!!), foi ainda descoberto que, também com verba do estado, foi erguido um outro no menor e menos conhecido município de Montezuma (7.400 habitantes em 2010 segundo o IBGE), também em Minas. Em comum entre os dois, além da desnecessidade evidente, há o fato de que nesta cidade a família de Aécio também possui propriedades.
                A impessoalidade é princípio constitucional da administração pública, assim como a supremacia do interesse público sobre o particular. Aécio parece (ou finge) não saber disso. As Minas Gerais, por essência e por natureza, nos presenteiam eventualmente com “preciosidades”. Tais escândalos, assim como o ‘mensalão mineiro’, pai do outro ‘mensalão’, que eles tentam abafar, demandam uma explicação cabal, antes que essas práticas se transfiram para o plano nacional. Felizmente a vitória dos tucanos nas eleições presidenciais é improvável.
                Depois de mais de dez dias de silêncio (talvez na espera de ouvir de alguém o que deveria dizer sobre o fato) o ex-governador se manifestou e disse que realmente usou o aeroporto de Cláudio umas três ou quatro vezes. A indefinição no número e a conhecida cara de pau do político podem nos deixar elevar as marcas a utilizações maiores. Ele se defendeu, julgando a situação como um “equívoco” de sua parte. Curioso, quando a falha ou o ilícito é cometido pelos outros candidatos ele chama de escândalo...
                Tais “realizações” trouxeram à lembrança do signatário um fato passado aqui. Cheguei a Cacoal há sete anos e me lembro do empenho e da luta da COPAHRC para que tivéssemos um aeroporto em nossas paragens, afinal, somos uma das maiores e mais importantes cidades de Rondônia. Demorou muito, exigiu esforços hercúleos, mas saiu. Acaso o senhor ‘Aero’ Neves ou sua família possuíssem propriedades por aqui, talvez as dificuldades tivessem sido bem menores.
                A falta de propostas e de programas da oposição vai transformar a campanha dos tucanos em um vendaval de ataques, já que não têm nada pra apresentar e contam com o suporte dos impérios da mídia. Agora, com um telhado de vidro como esse, vai ser difícil sustentar o contragolpe. Talvez seja a hora de repensar a estratégia e tentar apresentar uma agenda e um programa para o país. O povo não é tão idiota quanto eles pensam.

Obs: a citada fazenda em Cláudio já foi flagrada em 2009 com trabalho escravo. Nada mal para um postulante à presidência de um país...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ARIANO, A ESQUERDA E A DIREITA

               Como a grande maioria da população não lê praticamente nada (parece ter uma verdadeira ojeriza a livros, anoto), não teve o devido destaque e, via de consequência, o devido lamento e a tomada de consciência do risco da falta de substitutos, a morte, com diferença de poucos dias, de três gigantes da literatura brasileira: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.
                Suassuna ainda angariava mais admiradores modernos, sobretudo por sua singular verve irônica, pelo Auto da Compadecida (famoso na TV) e pela associação com o futebol, nada muito literário, infelizmente. Mas tanto ele, quanto os outros que também se foram, têm muito mais coisa boa para se conhecer. E é sobre um texto de Ariano Suassuna que se irá comentar, até mesmo à guisa de homenagem, pois, como acontece normalmente com os clássicos, está cada vez mais atual.
                É comum se dizer que não existe mais esquerda e direita. Quem diz isso normalmente é de direita e é, sem dúvida, um subterfúgio para se fugir da discussão, esvaziá-la e tentar se igualar todo mundo. E está absolutamente errada essa ideia. Pode não haver mais entre partidos políticos as divisões entre esquerda e direita, já que se transformaram em clones uns dos outros, guiados muito mais por interesses internos (escusos) do que externos, contrariando sua essência de representatividade e seu papel instrumental.
                Há ainda, sem dúvida, e como muito bem delineou Suassuna, homens de esquerda e de direita, independentemente de partidos ou da prática política. Os ideais permanecem. Com um viés religioso, mas inteligente, para analisar, o autor paraibano leva em conta a questão da justiça com os desvalidos para separar esquerda e direita, com óbvia desvantagem, por sua própria essência, para esta última.
                Ariano afirma que “Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva. De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”.”
                E conclui, de forma magistral: “no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.”

                A grande diferença matricial entre esquerda e direita está justamente nisso. Enquanto a direita luta pela liberdade (em sentido amplo), a esquerda luta pela liberdade aliada à igualdade. Não há liberdade na diferença. Não há aferição de mérito na disputa entre desiguais. Não há justiça sem as mesmas condições para todos. E, ainda, não há mais a Casa Grande e a Senzala. É essa a essência da esquerda, não dos supostos partidos de esquerda. E é isso que as pessoas teimam em não querer enxergar, ou, propositalmente, por uma contaminação midiática, preferem confundir. Obrigado, Ariano Suassuna. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O LEGADO DO COPA

                 O Hotel Copacabana Palace, inaugurado no Rio de Janeiro, na praia que lhe dá nome, na década de 1920 é o hotel mais famoso da América Latina e um dos mais famosos do mundo. Já recebeu em seus cômodos ícones mundiais como Mick Jagger, Walt Disney, Santos Dumont, José Saramago, Princesa Diana e inúmeros outros. Já foi cenário de filme, de show e de incontáveis encontros. Foi erguido pela tradicional família Guinle e recentemente vendido a uma rede internacional de hotéis.
                O local representa uma das (mais belas) imagens do Rio de Janeiro e do Brasil no exterior. Sinônimo de glamour e sofisticação, inspirado nos melhores hotéis do planeta, o Copa, como é conhecido, sempre se destacou tanto na paisagem quanto na alma do bairro, da cidade e do país, sempre impressionando por sua grandeza, arquitetura e estilo próprios, acalentando sonhos e angariando admiradores.
                O signatário sempre foi um desses e sempre conservou uma imensa vontade de usufruir de seu espaço mesmo que por um curto tempo. Com efeito, decidiu na semana passada, já que estaria no Rio de Janeiro, cometer a extravagância de passar ao menos uma noite no Copacabana Palace, muito bem acompanhado, anote-se. E não houve qualquer decepção, muito ao contrário. Vale mesmo o quanto pesa, ou melhor, nesse caso, o quanto cobra.
                Desde a chegada à belíssima entrada, passando pelo suntuoso hall até se alcançar a recepção onde o tratamento incomum já mostra a qualidade superior do lugar e a distnção que dá a seus hóspedes. São dois prédios em estilo clássico (principal e anexo) e uma esplêndida piscina aquecida cercada por três restaurantes com diferentes especialidades. Há ainda um spa completo. Na praia em frente é oferecido serviço de guarda-sol, espreguiçadeiras e segurança.
                Os quartos são impressionantes e até difíceis de descrever, aliando extremo luxo e conforto a uma incrível beleza e a uma gratificante funcionalidade, desde os mais simples (se é possível se chamar assim) até os mais luxuosos, como a suíte presidencial com mais de 100 m2 e uma vista deslumbrante. Lamentavelmente, devido ao horário do voo para Cacoal, não foi possível degustar o café da manhã.
                Há coisas que se deve fazer ao menos uma vez na vida. Hospedar-se no Copacabana Palace é uma delas. As lembranças são um verdadeiro legado para se guardar para sempre.

CUSPIDA NA CARA: Não satisfeita com a humilhante derrota por 7x1 para a Alemanha, a indefinível cúpula da CBF reconduziu o nervosinho e incompetente Dunga ao cargo de técnico da seleção brasileira. É cuspir na cara e na inteligência do povo, mostrar que não estão nem aí e que o que vale é o interesse da ‘paneinha’.
                 Até as pedras da calçada do prédio da entidade já haviam percebido que era a hora de se experimentar um treinador estrangeiro e que era óbvia a necessidade de reformulação geral do futebol nacional.  Mas trazer de volta alguém que já provou sua incapacidade, mostra por onde e para onde vai o esporte do qual um dia já fomos o país. Mostra também que não aprenderam nada com a acachapante goleada.

VITÓRIA EM CRISTO: Foi revogada, felizmente, a desprezível e injustificável proibição da Arquidiocese do Rio de Janeiro em autorizar a exibição da imagem do Cristo Redentor do Corcovado em um filme. Além da censura pura e descabida, traz à discussão o fato da estátua do Cristo “pertencer” à igreja católica local.
                O monumento foi eleito como uma das maravilhas do mundo moderno e é um símbolo não só da cidade do Rio de Janeiro, mas também do Brasil. E limitar a divulgação da imagem da estátua ao que a Cúria entenda “apropriado” é retirar dos verdadeiros donos, o povo brasileiro, a possibilidade de se deleitar com sua exposição.
                É bom que também se ressalte que o Cristo do Corcovado possui uma imagem própria, a “abraçar” os cariocas e os turistas que visitam a cidade. Não tem aquela imagem usada e explorada pela igreja (que pode ficar pra ela) de um ser humano açoitado, em frangalhos, pendurado em uma cruz, que, particularmente, não me agrada em nada. O Cristo do Rio é a cara da cidade, acolhedor, suave, simpático e não pode ficar nas mãos de meia dúzia de religiosos.


HOMO SAPIENS: “mesmo sendo de esquerda, dá pra apreciar a arte de viver da direita”. Jean-Paul Sartre, filósofo francês, após se hospedar no Copacabana Palace.

terça-feira, 10 de junho de 2014

VAI TER COPA



                A afirmação que compõe o título da coluna é absolutamente dispensável, por óbvia. Ninguém duvida de que vai ter Copa. Certamente não a Copa prometida, com o aguardado “legado”, mas vai ter. Desde 2007, aliás, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 era certo de que teria copa por aqui. Um discurso de protesto (até certo ponto bastante pertinente) cunhou a expressão (às vezes usada de maneira fascista) ‘não vai ter copa’, mas nem de longe se imaginou, com o mínimo de razoabilidade, sua efetividade.
                Vai ter Copa sim, é claro, assim como é claro, desde 2007, que vamos fazer um evento para gringos, com estrutura temporária para eles, vendendo parte de nossa soberania para a FIFA e deixando muito pouco de bom para os brasileiros. Mas isso tudo também já era esperado. Tudo por aqui é assim e temos um exemplo exponencial e deveras semelhante: o Panamericano de 2007 no Rio de Janeiro. Gastaram-se bilhões, da mesma forma, mas de bom desse evento não sobrou nada. Basta ver que tudo terá de ser refeito para as Olimpíadas de 2016 na mesma cidade.
                “Padrão FIFA”? Não, claro que não. Virou jargão e também grito de guerra em protestos a exigência de um “padrão FIFA” para diversos setores de serviços públicos do país, supondo que seria o “padrão” ideal. O Brasil nunca será um país “padrão FIFA”. Com Copa ou sem Copa. Aliás, o Brasil não melhora nem piora por causa da Copa. Não é por culpa do evento que estamos assim e também não é o primeiro (nem o último) evento que faremos assim, com o “padrão Brasil”: corrupção, fraudes, exploração, atrasos, maquiagens etc. Esse é o nosso “padrão”, infelizmente.        
                Já faz algum tempo, por outro lado, que o futebol deixou de mover o país. Temos muitas outras preocupações, tanto de ordem pessoal quanto de ordem coletiva. A Copa vai nos envolver enquanto a bola estiver rolando já que é um evento cativante, de fato. Mas acabando, com o Brasil campeão ou não, voltaremos aos nossos afazeres, tarefas, deveres, problemas etc. Esses não são possíveis de serem resolvidos assim, com Copa, sem Copa com “padrão FIFA” ou sem “padrão FIFA”. A vida de hoje não segue padrões e não se rende a eventos pontuais.
                Diante disso, é importante também salientar que, ao contrário do que afirmam alguns oportunistas/ineptos, o resultado do torneio de seleções não alterará em nada a disputa eleitoral desse ano. É ainda tachar o brasileiro de imbecil supor que um fator - tão diminuto e tão irrelevante do ponto de vista pessoal e mesmo em termos nacionais - possa determinar os contornos de algo tão importante como o futuro do país em ano de eleição presidencial. Esse motor eleitoral pertencia à ditadura. E nem naquela quadra deu certo.
                 Foi-se o tempo em que se associava futebol a política como algo determinante. Repetindo: os nossos problemas não melhorarão nem piorarão com a seleção ganhando ou perdendo a copa. Já o resultado de uma eleição de tais dimensões como a de 2014 mexe bastante com eles. Torcer e votar são coisas absolutamente diferentes. E o brasileiro já sabe disso de há muito.
                Ademais, protestos legítimos têm de existir sempre, seja durante a Copa ou após. O brasileiro sempre foi muito passivo e assistiu, submisso, à venda do nosso país com a privataria tucana, à corrupção desenfreada de épocas imemoriais, às maiores taxas de juros do mundo, à falta de políticas públicas eficazes em diversos setores; é até hoje enganado pelos exorbitantes pagamentos que o poder público faz aos bancos (o que faz com que falte dinheiro para o país, realmente), e se curvou à contumaz pressão conveniente da mídia em favor de seus preferidos. Espero que tenha chegado a hora de abrirmos o olho, ou, usando outro clichê dos protestos: “o gigante tenha acordado”. Seria o melhor legado que Copa poderia nos deixar.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

"VOTO EM QUALQUER UM, MENOS NO PT. SÓ NÃO SEI DIZER O PORQUÊ..."



                    Poucas coisas são mais ridículas em uma discussão sobre política do que alguém lançar mão da frase: “voto em qualquer um, menos no PT” e, quando confrontado sobre o motivo da afirmação, não sabe dizer o porquê. Ou pior, vomita o que de mais abjeto pode servir de “argumento” em um debate que se pretenda minimamente razoável: “porque não”. O ápice da truculência argumentativa e da ignorância racional. E isso, para quem está acostumado a conversar sobre política, é absolutamente corriqueiro, infelizmente. Cumpre, de imediato, o alerta de que o signatário não possui qualquer vínculo com o PT.
                Revela, evidentemente, o total desconhecimento do sujeito sobre inúmeros (ou talvez todos) aspectos que envolvem a questão. Não sabe, por exemplo, que essa retórica já está de há muito obsoleta e que era propagada por uma elite privilegiada entre o fim da década de 1980 e meados da década de 1990, quando ela se sentia “ameaçada” por um partido à época com bandeiras sociais contundentes que “ameaçavam” seu reinado secular. Talvez o atual propagador do lema, por querer fazer parte dela, supõe ser essa ainda a postura exigível. Ledo e atrasado engano.
                Não sabe, com efeito, que grande parte desta mesma elite, a que ele gostaria de pertencer, comemora hoje os governos petistas, sobretudo os banqueiros, ícones do andar de cima do estamento social. Ignora, ademais, que o PT já se afastou, aparentemente em definitivo, daquelas políticas ideais e sociais que serviram de base e de impulso ao partido, traídas pelo pragmatismo do poder e, sobretudo, da sua manutenção. Um dos péssimos nomes que isso carrega é governabilidade, neologismo que justifica o fisiologismo, o clientelismo, e outras práticas deletérias à sociedade.
                Desconhece também o pobre incauto que um partido não governa sozinho e que há inúmeros mecanismos de contenção política e jurídica para abusos e desmando. E que não há qualquer chance do país ser transformado em Cuba, Venezuela, ou em nenhum outro, nem mesmo em alguma Alemanha ou Suécia se seus preferidos estiverem governando. Esse maniqueísmo canhestro, tentado a definir e separar por partidos quem é bom e quem é mal para a política do país é ridículo.
                Vale citar um famoso constitucionalista, Ferdinand Lassalle, para informar aos desavisados que em nosso país, inalteravelmente consolidado como um estado democrático de direito, vigora não só uma constituição da república, mas a seu lado atuam também os fatores reais de poder, impedindo qualquer arroubo ou delírio totalitarista.
                Nada melhor do que leitura e a observação para que se acumule cabedal argumentativo. Não basta em uma discussão a coragem do enfrentamento pela truculência barata nem uma retórica vazia inspirada em alguém ou em algo que não se sabe nem mesmo o significado ou a postura. Repise-se, por oportuno, o aviso de que o signatário não possui qualquer vínculo com o PT. Outrossim, defende com veemência muitas daquelas ideias das quais o partido se afastou, objeto de comentário acima. O que não nos conforma são a discussão e o debate baratos, estapafúrdios e vazios. E não a defesa desse ou daquele partido político.
                Nesse ano teremos eleições no país e não há melhor momento para uma devida reflexão política. Não se deixe levar por argumentos rasteiros e carentes de fundamentação. Pense, leia, pergunte, procure saber, antes de entrar em debates e discussões ou, sobretudo, de tomar decisões eleitorais.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

RETRATO DO VAGABUNDO

É errônea a ideia que se tem de que o vagabundo é todo sujeito que não trabalha. Há algumas hipóteses em que se é possível, digamos, evitar trabalhar. Se o sujeito herdou uma fortuna, por exemplo, e optou pelo ócio, não há o que condenar. Se ganhou vultoso prêmio de loteria e abandonou preocupações laborais, também deve ser eximido da ingrata pecha. Se já amealhou numerário polpudo com o trabalho e se cansou, também pode se “aposentar” antes da hora. Mas, se deve parar por aí.
                Vagabundo é, na verdade, aquele que deveria trabalhar e, por opção ou “vocação”, não trabalha. Precisa, pelo próprio sustento ou da família ou eventualmente da prole, mas se recusa, voluntariamente. Não procura, não produz, não desenvolve. É um pária. E também um parasita, já que vai ter de achar alguém para bancá-lo. E normalmente são exigentes quanto a um bom padrão de vida e a hobbies sofisticados. Normalmente é um perdedor nato que tenta reverter essa situação à custa dos outros.
                O vagabundo, pela exclusão e pela desídia, não consegue ter dinheiro justo, honesto ou merecido. Se aparece com algum, ou tomou ou enganou alguém. E há alguns desses sujeitos que conseguem se fazer passar por vítimas ou por “injustiçados” durantes anos. Outros, mais repugnantes ainda, aplicam golpes até em filhos. O vagabundo, muitas vezes, é covarde.
                Tal laia presta não só um desserviço social, como também uma péssima influência aos filhos e aos pares. A opção razoável e não condenável por não trabalhar, como dito acima, é muito remota e trabalhar significa também dar exemplo, mostrar que as coisas não vêm tão fáceis e que viver à custa de outrem é algo indesejável. O contrassenso está no fato de que, para muitos vagabundos, as coisas vêm fáceis mesmo. Mas chega uma hora em que acaba a farra. E aí muitos se perdem.
                Quando esse dia chega, muitos se colocam, conforme já falado, como vítimas, como injustiçados, mas, doentes que são, fingem pra plateia, muitas vezes incauta (como filhos pequenos, por exemplo), que nada aconteceu e se esforçam (algo difícil para eles, anoto) em tentar mostrar que tudo continua como sempre foi e que não dependem de ninguém. Nem do trabalho... É uma megalomania doentia mesmo, patológica. A farsa deve ser sustentada, não se admitindo ao público a vulnerabilidade e a necessidade. A falta de escrúpulos é característica marcante.
Mas tal encenação não costuma durar muito, felizmente. É certo que ninguém gosta de sustentar vagabundo. Pelo menos, se fazem, é só por um tempo. Às vezes até por alguma misericórdia, o que deflagra uma das piores faces da questão, pois coloca o vagabundo na posição mais ingrata possível: ser digno de pena.
 O vagabundo acaba isolado, afastado da sociedade, resultado da patologia que ele mesmo lhe impingiu. Seu futuro é incerto. A cadeia é um dos que melhor se afiguram, já que são golpistas por natureza e inescrupulosos por vocação. Muitas vezes, coisas que deveriam ser aprendidas em casa acabam por ser ensinadas efetivamente na rua, o que redunda em algo bem mais doloroso, tanto no sentido literal quanto no figurado.

A conclusão é óbvia: Vagabundos são nocivos, deletérios à sociedade. E vale o conselho: Nunca sustente ou se deixe enganar por um vagabundo!

terça-feira, 29 de abril de 2014

CORRIGINDO IMPROPRIEDADES: #NÃOSOMOSTODOSMACACOS



                É indiscutível a repugnância às atitudes preconceituosas ocorridas no último fim de semana no meio esportivo. Na Espanha, foi lançada uma banana na direção do brasileiro Daniel Alves, jogador do Barcelona. A reação dele foi imediata e genial: Daniel comeu a banana, atordoando, certamente, seu ofensor. Nos Estados Unidos um dirigente de um time de basquete fez uma ligação (gravada) criticando e condenando asperamente a namorada que havia postado uma foto ao lado de um jogador negro em sua rede social. Ambos os fatos causaram enorme indignação no mundo e respostas à altura, inclusive de Barack Obama.
                Cumpre corrigir, no entanto, uma impropriedade jurídica acerca destes fatos: não se tratam de crimes de racismo e sim de crimes de injúria qualificada, o que, tecnicamente, é bem diferente. Prevê, com efeito, o artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal: Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: (...) 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência. Pena - reclusão de um a três anos e multa. É a tipificação, em nossa legislação, da injúria racial, o que de fato aconteceu nos episódios citados já que houve ofensa direta à honra subjetiva de determinadas pessoas em razão de sua raça ou cor.
                O crime de racismo, por sua vez, está previsto na lei 7716/89. Ocorre quando se nega ou se impede o exercício de direitos a alguém com base em questões de raça ou cor. Aproximando-se dos fatos ocorridos, se daria caso o jogador Daniel Alves, por exemplo, fosse impedido de entrar em campo em virtude do fato de ser negro (ou mulato, como ele é realmente). São circunstâncias bastante diferentes. O crime de racismo, aliás, é imprescritível e inafiançável, ressalte-se.
                Desfeita a impropriedade técnica, convém analisar um lado da repercussão do primeiro fato. Explodiu nas redes sociais, capitaneada por jogadores e por artistas que não perdem a oportunidade de aparecer por “boas causas”, uma campanha de repúdio à atitude contra o jogador brasileiro estampando a frase: “somos todos macacos”. Imaginam, me parece, que estão igualando a todos, considerando-nos todos como macacos.
                Ora, não sou macaco! Absolutamente! Nem macaco, nem boi, nem girafa, nem urso, nem leão, nem qualquer bicho. E não pelo fato de ser branquelo. Sou simplesmente humano, assim como os ofendidos e ofensores nos casos em comento. Ademais, ao assumir uma condição de “macaco” não poderia me incomodar com o fato de alguém me lançar uma banana. Nada mais normal, aliás. Não somos macacos, definitivamente. Somos humanos. É isso que nos iguala. Além disso, foi completamente quebrado o caráter genuíno da campanha, que parecia espontânea. Revelou-se que uma agência de publicidade, associada ao Neymar, já tinha tudo pronto, “esperando a hora certa para lançar”. O Luciano Huck Já tinha as camisetas prontas e está vendendo a R$70,00. Oportunismo descarado em várias frentes.
                Por outro lado, é bom lembrar que esses episódios ocorreram bem longe e quem sofreu foram pessoas famosas e muito bem de vida financeiramente que, sinceramente, não sei se incomodam tanto com essas ofensas. Já atingiram um status na hierarquia social, deixando de lado qualquer dificuldade referente à sua raça ou cor. Devíamos aproveitar o ensejo, no entanto, para nos preocuparmos com o insidioso racismo real que vivenciamos diariamente aqui no nosso país, sobretudo contra negros pobres, e que não é exposto devidamente na mídia nem abraçado por artistas. Vimos há pouco um ator sendo preso confundido com o verdadeiro criminoso pelo fato de também ser negro. Ou os negros reduzidos a condição análoga à de escravo por grandes fazendeiros e empresários. Ou muitos outros casos... São fatos corriqueiros e, lamentavelmente de pouca repercussão e menos ainda de punição.
                Não basta criticar o que aconteceu lá fora, nem fazer campanha oportunista em prol de negros de elite. Tem-se que corrigir e coibir o que há aqui, debaixo de nossos narizes e – pior- praticado por nós mesmos.