terça-feira, 14 de outubro de 2014

DIGA-ME COM QUEM ANDAS...



                   Não sou muito adepto desse ditado, pois já vi cometerem injustiças com base nele. No entanto, dependendo do tamanho e do impacto da gangue, podemos extrair muito da personalidade do sujeito. E como nessa campanha muitos estão sendo enganados por premissas erradas como a fórmula mágica (inexistente e impossível) de transformar a economia brasileira na da Suécia e de que o PSDB é avesso à corrupção e vai exterminá-la, penso ser útil (e imperioso) que se apontem alguns fatos da “galera” do Aécio. Fui criticado por criticar o guru FHC, por “desconstruir” Aécio, mas quem sabe possa falar da turma dele... Agradeço muitas das lembranças a um texto do professor de ciência política da UFMG Juarez Guimarães.
                O PSDB posar de bastião da ética e do respeito à coisa pública e Aécio de paladino da moralidade soa como a Gretchen querer posar de virgem ou a Al Qaeda de pacifista. Logo ele, que, ao mesmo tempo em que fazia faculdade no Rio de Janeiro, ocupava o cargo de assessor parlamentar (do pai!) em Brasília. Haja ubiquidade! Para somar, é bom lembrar que o partido foi o que mais teve candidaturas impugnadas com base na lei da ficha limpa nas últimas eleições municipais, 57. É muita coisa e expõe como a sigla lida com a questão: a nossa pode, a deles não. Antecipo que não eximo membros do governo atual de culpa na corrupção (acho que devem mesmo ser punidos exemplarmente) nem sou ingênuo ao ponto de achar que ela não existe. Mas não é com Aécio que ela vai acabar, sem dúvida.
                Quase todo mundo sabe, de maneira enviesada e pouco explicada pela mídia, que o mensalão do PT tem como pai o mensalão instituído em Minas Gerais, operado pelo mesmo Marcos Valério e tendo como capitão político o então governador Eduardo Azeredo, que renunciou ao mandato de Deputado Federal para não ter de responder sobre isso perante o STF. Muita honradez... Azeredo é íntimo de Aécio não só na política, engrossando as fileiras de seu palanque no estado, como na vida privada, tanto é que o candidato a presidente é padrinho de casamento de seu filho.
                Ainda em Minas podemos buscar a nobre figura do ex-vice governador no primeiro mandato de Aécio, Clésio Andrade. Esse senhor, que foi sócio de Marcos Valério, também renunciou ao mandato de senador para escapar do julgamento no Supremo. Andrade, no entanto, recebeu, dentre outros, um belo presente do amigo Aécio: sua mulher Adriene Andrade foi indicada para o Tribunal de Contas do estado, a despeito de sua baixa experiência e dos protetos. Foi premiado pela pupila (aparelhamento?) com o seu parecer favorável às contas do governo do estado exatamente na época em que o marido e o amigo compunham o executivo.
                Aécio é mesmo um cara legal. Seu amigo Zezé Perrela, que de um nada político se elegeu senador e ao filho deputado estadual, teve um helicóptero apreendido com quase quinhentos quilos de cocaína. E o que aconteceu? Nada. Nem os pilotos, que foram obrigados a assumir a posse da droga, estão presos. É notória a associação que se faz do presidenciável ao uso desse entorpecente, inclusive.
                Outro “parça” do senador mineiro, o também tucano Carlos Mosconi, derrotado nas urnas no último pleito, mas favorito a um bom cargo caso o “brother” se eleja, responde pelo que se denominou “máfia dos transplantes”, no sul de Minas Gerais. Alguns médicos envolvidos já foram presos. Ou ainda o ex-procurador geral de justiça do estado, Alceu José Torres, sempre compreensivo com as denúncias contra Aécio, vetando os pedidos de investigação, foi agraciado com a secretaria de meio ambiente do governo Anastasia.
Vale lembrar também que outros governos estaduais do PSDB possuem igualmente um vasto repertório de corrupção e/ou de desrespeito à coisa pública. Marconi Perillo, de Goiás, tinha na sua chefe de gabinete o elo com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, que gozava de incomensurável influência naquele estado. Sem falar no senador cassado Demóstenes Torres, também de lá, filiado ao DEM, aliado de primeira hora dos tucanos. Há também a ex-governadora tucana do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, com os milionários desvios do Detran gaúcho e as famosas sobras de campanha.
                Podemos também citar o inquestionável e insuspeito Geraldo Alckmin, que teria de explicar a continuidade, em seu governo, do bilionário esquema de desvios de dinheiro do metrô paulistano e as denúncias (comprovadas) de pagamento de propinas pela Alston e pela Siemens. Em São Paulo, felizmente, o tucanato conta com o auxílio luxuoso do conselheiro do TCE Robson Marinho (indicado por eles) e suas gordas e lícitas contas na Suiça. Torno a perguntar: aparelhamento? Não, aparelhamento são as nomeações dos adversários...
                E chegamos ao grande líder, Fernando Henrique. O PSDB não recorda, pelo visto, que um de seus primeiros atos como presidente, foi a extinção da ‘Comissão para Investigação da Corrupção’, criada por Itamar. E que em seu império a Polícia Federal, responsável pelas investigações de crimes dessa natureza, tenha realizado o expressivo número de quarenta e oito operações. Incrível... E ainda a consagrada atuação de seu procurador-geral da república Geraldo Brindeiro, o famoso “engavetador” que, além do processo de apuração da compra de votos para a reeleição, engavetou 242 dos 626 inquéritos que recebeu, arquivando, ainda, outros 217. Ademais, Paulo Roberto Costa, o heroi da campanha de Aécio, começou a trabalhar na Petrobrás em 1995, época do governo FHC. 
                É no mínimo suspeito um tucano, portanto, insistir no mantra do combate à corrupção, já que eles mesmos a praticam e a toleram, notoriamente e de forma corriqueira. A falta de propostas concretas, factíveis, justas e o cinismo com que tentam convencer de que é possível o Brasil se transformar na Suécia já expõem bem a forma com que tratam a ética e a moralidade pública. Talvez eles também se valham de Nelson Rodrigues, que afirmou que “não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O PASSADO COM FHC E O FUTURO COM AÉCIO

                O brasileiro é sabidamente um povo de pouca memória, sobretudo memória política, vítima que é a massificação pela mídia, do pensamento único, da indignação seletiva de intelectuais anódinos das grandes corporações e imprensa e da sanha do mercado. Muitos hoje confundem o que chamam de mudança (votando em Aécio) com um perigoso retrocesso. Basta lembrarmos, usando de manchetes de jornais da época (hoje comprometidos com a Jihad tucana anti-PT como se davam questões que hoje são alvos de ataque quando do governo tucano. A fonte é das manchetes abaixo (com fotos) é o blog carta maior Cabe, a quem duvidar, a prova contrária dos fatos ora aduzidos.
                Vale ressaltar que Fernando Henrique Cardoso voltou a ser o principal garoto propaganda da campanha de Aécio Neves, depois de sua malfadada tentativa de aproximação com Marina Silva. Espero que os eleitores de Aécio, que até agora não mostraram propostas nem mesmo motivo reais e racionais para votar nele, sem recorrer à truculência típica da direita ou ao surrado “tirar essa gente de lá” ou ao idiota “nossa, você é tão inteligente e vota neles...” ou ao ódio aos mais pobres que, pela primeira vez na história, experimentaram um pouco de dignidade, tenham a capacidade de ler até o final.
                Ao contrário do que pensa o ‘príncipe dos sociólogos’, quem vota em Dilma não é burro, muito ao contrário. São os únicos que sabem o que realmente está acontecendo e, pior, o que está para acontecer. Aqui estamos diante de dados e fatos e não de discursos vazios, fórmulas “mágicas” ou ameaças mentirosas e irresponsáveis.
                A Folha de São Paulo de 29 de maio de 2002 anunciou em letras garrafais que o Brasil era o segundo país do mundo em desemprego. A culpa, segundo analistas ouvidos pelo jornal, era da política econômica irresponsável, taxas de juros exorbitantes e as nefastas privatizações. Hoje, sem políticas privatistas, juros controlados e política econômica segura, temos o chamado ‘pleno emprego’. Os governos de Lula e Dilma criaram mais de vinte milhões de postos de trabalho.
                A mesma Folha estampou em 30 de agosto de 2002 que FHC conseguiu a façanha de dobra a dívida pública brasileira em apenas sete anos, passando de 30 para 61% do PIB. Tal acrobacia, além de quebrar o país, só beneficia o rentismo, representado por especuladores que em nada servem para a produção, o crescimento ou desenvolvimento do Brasil. Lula corrigiu o déficit e recuou a dívida para 35% do PIB.
                Em 03 de abril de 2002, ainda na Folha, tivemos a triste notícia de que os salários em São Paulo (reduto em que Aécio nadou de braçada) teve perda de 18,8% apenas na década de 1990. Baixos salários é uma das marcas da política econômica que Aécio pretende reimplantar. Salários dignos não fazem parte dessa política, muito menos redistribuição de renda.
                Até mesmo o comprometido O Globo, pasmem, trouxe como manchete principal em sua capa do dia 29 de novembro de 2002: “Inflação de novembro fica em 5,19%, a maior do Real.” Isso só em um mês! Incrivelmente, uma das insistências do mal informado candidato Aécio Neves, com sua pose de falsa virgem, é que agora a inflação está “sem controle”, mesmo estando dentro da meta.
                Outro incansável mantra da campanha tucana é o da corrupção, variando entre o mensalão e Petrobras, como se fossem os únicos casos desse câncer que contamina o Estado brasileiro. Denúncia da Folha de São Paulo de 13 de maio de 1997 mostra a confissão de um deputado que afirmou ter recebido duzentos mil reais para votar a favor da reeleição de FHC. E sem a pressão da delação premiada. Estima-se que o número de “agraciados chegou à casa dos cento e cinquenta.
                Tudo isso sem falar que o tucanato falseou a paternidade do Plano Real, quebrou o país três vezes, virou refém do FMI, passou por um apagão energético, o dólar chegou perto dos R$4,00... Podemos mesmo chamar Aécio e FHC de mudança ou está claro o perigoso retrocesso? Pensem bem e vejam quem está enganando o povo brasileiro e quem, de fato, é mal informado.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A VERDADE, POR FAVOR

            O comprometimento da mídia conservadora com a chamada “velha política”, notadamente demonstrado por Globo e Veja seguidas pela Folha, presta, para usar de um eufemismo, um enorme desserviço à população brasileira. O (mau) jornalismo interessado e a indignação seletiva de seus intelectuais anódinos acaba por induzir o telespectador e o leitor desavisados a comprarem as ideias por elas expostas. Há casos emblemáticos como a demonização do PT e o endeusamento dos tucanos, vitaminados nessa reta final eleitoral em proporções incríveis.
                Em ano (e período) eleitoral, seria ética, embora utópica, uma enxurrada de esclarecimentos e de transparência para que o leitor saiba um pouco mais das “verdades” às quais é apresentado diuturnamente. A verdadeira Jihad, nociva ao ambiente democrático, criada, sobretudo por Fernando Henrique, e insuflada herculeamente pelos barões da mídia contra o Lulo-petismo alimenta a camuflagem, a maquiagem e o engodo. Churchill sabiamente anunciou: “Não existe opinião pública. O que existe é opinião publicada”. Anoto, repetindo de antemão e por imperioso, que não sou filiado ao PT.
                Qualquer pessoa que já ligou uma televisão esse ano já ouviu alguém entoando do outro lado o mantra que o mensalão petista foi o maior escândalo de corrupção de todos os tempos, fazendo com que o PT se elevasse ao papel de inimigo número um do Estado, um Estado, ressalto, historicamente corrupto escorado por uma sociedade também historicamente corruptora. Mas isso não deve ser dito... Agora vem a Petrobras... Querem, de todas as maneiras, atribuir responsabilidade (quase que exclusiva) à presidenta, esquecendo-se do fato de que o verdadeiro responsável já está preso.
                Números não costumam mentir e muitas vezes socorrem. É o caso. Cumpre, a bem da verdade, descontruir-se o mito criado em torno do chamado mensalão do PT. Adiante-se que não se trata aqui de qualquer defesa que não seja a defesa da verdade. Sou visceralmente contra a corrupção em qualquer circunstância. E nesse banho de realidade, o tucanato se encharca, vejamos. Nem Aécio, com sua pregação de falsa virgem, escapa.
                Relatório do Supremo Tribunal Federal na ação penal 470 (mensalão do PT) revela que foram movimentados no escândalo 102 milhões de reais. Um ervanário considerável e inadmissível, mesmo sendo dinheiro privado. Cumpre informar que ainda não há cálculo do mensalão do PSDB mineiro, pai do outro, nem do metrô de São Paulo, rapinado pelos tucanos. No entanto, segundo cálculo do Ministério Público, o mensalão do DEM em Brasília, irmão siamês do PSDB na era FHC, movimentou incríveis 739 milhões de reais! O desvio de verbas do TRT paulista, que levou à cadeia apenas o juiz Lalau, conforme o Tribunal de Contas da União foi da ordem de 169 milhões em 2001, sem atualização.
                E o mais eloquente e devastador de todos: as privatizações promovidas por Fernando Henrique tungaram do país, segundo o jornalista Aloysio Biondi, dois bilhões e quatrocentos milhões de reais!!! Estima-se ainda que o escândalo do Banestado, dos vampiros da saúde e do Banco Marka também consumiram fortunas na casa dos bilhões, com dois dígitos! Sem falar na compra da aprovação da reeleição de FHC, na qual cento e cinquenta (!!!) parlamentares receberam duzentos mil reais cada. Uma verdadeira aula de corrupção com objetivo político. O povo que parece crer (ou fazer com que creiam) que o PT inventou a corrupção no Brasil deve estar confuso...
                Seria da ingenuidade de um jornalista da Globonews perguntar agora qual (ou quais) é o maior escândalo de corrupção da história do país. O que cabe é a conclusão insofismável: as privatizações. Petrobras (que ainda carece de muita apuração) será fichinha. Mas a pecha já foi imposta e a verdade não interessa mais. Opa! Mas não a todos. Imaginei, inocente e raso como um colunista da Veja, que a verdade era importante para a mídia e que deveria sempre ser revelada a bem da nação. Ledo engano.

                O lema parece ser: “o que tem de bom a gente não mostra ou mostra com desmerecimento (como a declaração da ONU de que o Brasil é atualmente referência em redução da fome e da pobreza). O que nos interessa a gente escancara”. Um dos líderes da turba, William Bonner, já declarou (sem corar) que o telespectador do Jornal que ele capitaneia e que domina a audiência é simbolizado pelo Homer Simpson. Quem conhece o personagem sabe do que eu estou falando. Deveriam se indignar ou, ao menos, tentar se informar melhor para poder exigir um “posto” melhor na hierarquia Bonneriana. Sugiro, ao cabo, a blogosfera da internet como “purificadora” de informações.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

RESQUÍCIOS VERGONHOSOS

             O grande amigo Mário Werneck, ilustre advogado e professor das Alterosas, costumava dizer, na época em que fazíamos o mestrado em Direito, que um país que passa por uma ditadura, demora, pelo menos, o dobro do tempo que ela durou para se restabelecer plenamente em termos democráticos. A vergonhosa ditadura do Brasil iniciou-se em 1964 e terminou oficialmente em 1985.
                Pelas contas do Mário, portanto, ainda precisaremos de mais treze anos para restaurarmos plenamente nossa democracia e os efetivos pilares do estado democrático de direito estampado em nossa Constituição da República. Parece, no entanto, que alguns resquícios da ditadura ainda impregnam nossa sociedade de forma bastante eloquente, o que pode adiar indeterminadamente o processo de plena redemocratização. Destaco entre eles, a prática e a tolerância com a tortura, alguns políticos “filhotes” da ditadura ainda em cargos públicos e a cultura da delação e da ameaça, objetos estas últimas da presente coluna. O roteiro a seguir merece reflexão.
                Corta para uma sala de aula de uma escola em Cacoal: a professora escreve no quadro, de costas para a turma, enquanto um dos alunos (ou alunas) lança sobre o quadro o facho de uma caneta laser. A professora se vira e pergunta a todos: “quem está fazendo isso?” Não há resposta, por óbvio (pausa para palmas da plateia). Não satisfeita, a “educadora” lança mão do absurdo: “se não disserem quem é, todos receberão advertência por escrito endereçada aos responsáveis.” Nada (mais palmas). Parênteses: o signatário gostaria de mandar uma notificação aos pais desses alunos parabenizando-os. Volta na “professora”, que, não satisfeita com seu arroubo ditatorial, dispara: “então todos vão perder dois pontos em duas matérias!” Chantagem ainda por cima. Os bravos alunos se mantiveram firmes (mais palmas). Estamos diante de um grave escândalo pedagógico.
                Não parou por aí a sanha de agente do DOPS da “educadora”. Volta nela: Quem não assinasse uma tal lista deveria se dirigir à sala da orientadora, que, aparentemente, corrobora com os métodos da “professora”. Ora, que espécie de pedagogia é essa para crianças de onze anos? Que cidadãos pretendemos formar? Que métodos são esses? Estão educando às avessas? Quais são os valores perseguidos? Sou professor há onze anos, posso falar com propriedade. Ademais, julga-se muita vez, com base em premissa absolutamente equivocada, que violência é só ofensa física. Grave engano. A ofensa psicológica e a violência intelectual podem causar danos tão profundos quanto. Precisamos voltar com o slogam “abaixo a ditadura”? E em uma escola de ensino médio?
                Note-se que, além de ameaçar gravemente quem não denunciasse um colega que, convenhamos, não fez nada grave, ainda procurou impor como certa a conduta delatória, à maneira como fazia o exército com aqueles contrários ao regime da época, prática que tanto se condena. Será que ainda não conseguimos nos livrar dos dedos-duros? Ou estamos criando novos, “facilitando” a busca sobre os fatos? Ou talvez ainda existam nas escolas muitos extemporâneos simpatizantes do golpe militar.
                Felizmente, a indigitada “professora”, não obteve êxito em seu surto ditatorial e antipedagógico. Os alunos, em postura admirável, permaneceram inertes diante de suas ameaças e ainda, em uníssono, reclamaram da possibilidade de serem advertidos por se recusar a ter uma conduta das mais repugnantes. Certíssimos. Quem merece uma advertência cabal é a professora, sem dúvida. Aos alunos, os nossos mais sinceros elogios. Sempre ouvi em casa (e aprendi), desde pequeno, que um dos maiores crápulas sociais é o dedo-duro. Não “dedurar” é imperativo ético.
                Corta agora para a campanha presidencial: o assunto palpitante do momento é uma delação premiada (sic) de um criminoso preso (haja credibilidade!) que lançou à luz uma série de nomes ao seu próprio alvedrio, sem apresentar até o momento provas concretas da participação daqueles em episódios de corrupção na Petrobras.
                A imprensa golpista e denuncista adorou, amplificando suas palavras e incentivando sua propagação e infiltração entre os brasileiros para prejudicar a presidenta Dilma e Marina Silva. Não conhecem a presunção de inocência nem o devido processo legal. Ou, se conhecem, só usam quando interessa. Essa imprensa sempre foi simpática à ditadura. Nada mais óbvio, portanto. O que seria louvável é que esses jornalistas tivessem uma aula com os alunos de onze anos de uma escola de Cacoal, que repeliram o resquício do “dedodurismo” e da ditadura e preferiram o estado democrático de direito.

P.S. As coisas podem mesmo piorar. Os professores dessa escola foram autorizados (por algum ignorante) a tomar e rasgar trabalhos de alunos que estejam sendo realizados na aula de outra disciplina. Caso algum “professor” siga está criminosa ordem, o signatário sugere seja dada voz de prisão imediata por roubo. Esses são os nossos educadores...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

MARINA? NÃO, NÃO!

             Não preciso de motivos para não votar em Marina Silva uma vez que já tenho candidata. Mas, mesmo assim, posso apresentar vários. Nem o maior dos fatalistas poderia imaginar a trágica morte de Eduardo Campos no momento em que a campanha (real) começava. Nem tampouco a gigantesca comoção que tal fato causou no eleitorado brasileiro, catapultando Marina a um imprevisível empate com Dilma já no primeiro turno. Peças que o destino prega. Não é o primeiro jogo de dados dessa natureza. Jânio e Collor também se alçaram pelo acaso. E sabemos no que deram.
                Imponderável à parte, Marina assumiu a cabeça da chapa e impõe, despoticamente, como é do seu feito, seu confuso programa de governo e suas ideias pessoais, mesmo que no projeto não se incluam e, ao cabo, cortou alianças costuradas por Campos com a frieza de um predador feroz. A candidez e a imagem simples que tenta passar não combinam tanto com a Marina dos bastidores, impositiva, intransigente e, às vezes, fundamentalista. É bom que se adiante que Marina Silva não é o José Mujica (presidente do Uruguai) à brasileira. No entanto, o brasileiro não está acostumado a se aprofundar nos assuntos que mais deveriam lhe interessar. Prefere absorver a indignação seletiva e a beatificação oportunista promovidas convenientemente pela mídia conservadora.
                A imagem de santa de Marina não convence. Seu jeitão de “pobrezinha” é artificial. Ela encheu as burras de dinheiro nos últimos anos proferindo palestras pelo país. Mais de um milhão e meio de reais! Um ervanário invejável, bancado por quem? Marina não revela. Triste, pois abre espaço às piores elucubrações. Dentre os “clientes” comprovados está o Credit Suisse e o Banco Itaú. Não há nada errado em se fazer palestras e em cobrar por elas. Só muda se quem estiver pagando forem potenciais interessados em um mandato futuro. Diga-me se andas com banqueiros que te direi quem és.
                O Brasil não é um paraíso fiscal, Meca dos sonegadores internaconais, mas é um paraíso bancário, porto seguro e feliz das instituições financeiras estranguladoras de “clientes” e dos rentistas. Em poucos lugares do mundo os bancos lucram tanto como aqui e recebem pagamentos tão generosos de dívida pública como aqui (duzentos bilhões de reais por ano!!!). Nossos juros são os maiores do mundo. Nada melhor, pra eles, lógico. Diante desse quadro, seria imperiosa uma revisão desta desproporção lucrativa e de seu rastro avassalador. Ocorre que a coordenadora da campanha de Marina Silva é banqueira...
                E não só isso. Neca Setúbal, como é conhecida a herdeira do banco Itaú, responsável também pela área econômica do programa de governo, deveria responder por um papagaio tributário da ordem de 18 bilhões de reais (quase uma Copa) resultado do calote que a união sofreu quando da compra do Unibanco pelo banco da família de Neca. Ela ainda não disse palavra sobre isso. Se a “pergunta do milhão” da TV já é sedutora, imagine a de 18 bilhões. Aguardemos, alijados da verdade, como sempre. Mas quando o assunto é autonomia do Banco Central ela é a primeira a defender (e a confirmar) a ideia. Muito conveniente.
                Marina significa o retorno ao neoliberalismo (Estado mínimo, câmbio flexível, juros ao sabor do mercado etc), aquilo que há de pior e de mais nefasto na política econômica. Para os pobres, bem entendido. Para os ricos rentistas é, como já dito, o paraíso. O que impulsiona a economia sonhada por seus pares é a desigualdade. Mais um ponto pros ricos, cada vez mais ricos. Adeus, justiça social, definitivamente. Não custa lembrar que o Brasil demorou séculos para se preocupar efetivamente com os pobres e, sobretudo, os miseráveis. Acho que não colou... Não dá pra imaginar que Marina seja tão ingênua a ponto de supor que ao entregar o país ao mercado ele será bonzinho. Retrocesso social é proibido constitucionalmente. Deveria ser também moralmente...
                Marina diz que não transige em assuntos ambientais ou de doações à campanha por empresas que ela considera “do mal”. No entanto, quando o tema é religioso, ela parece sucumbir. Foi assim no lamentável episódio envolvendo o destemperado fundamentalista evangélico Silas Malafaia (difícil adjetivar esse senhor). Positivamente então, acho que não consigo. Mas ele mostrou seu insidioso poder e dobrou a candidata em poucos tweets. Foi só esbravejar na internet quanto ao conteúdo do programa dela em termos de direitos dos homossexuais que Marina arrefeceu e mandou alterar tudo. Silas é teocrata, o que já revela seu perigo. Marina seguiu sua cartilha.
                O ambientalismo tão apregoado por Marina também soçobrará inegavelmente diante de seu projeto econômico. Qualquer estudante do ensino médio com o mínimo de noção sobre ecologia sabe que não fecha a equação do desenvolvimento sustentável e da postura política neoliberal exploratória e predatória. Ela prometeu uma “ressignificação” desses conceitos. Não explicou o neologismo nem muito menos a fórmula mágica. Eduardo Gianetti e André Lara Resende serão os Malafaia econômicos do ambientalismo de Marina. Se assumir a presidência, mudará o discurso em poucos meses.
                Marina pesa a mão se valendo da responsabilidade da presidenta no episódio da Petrobras após uma delação premiada, mas pede que não se “mate” novamente Eduardo Campos, relacionado na lista de suposto beneficiários de propina. A candidata precisa  calibrar sua opinião sobre esse ( e outros) assuntos dos quais não é possível se analisar com dois pesos e duas medidas. Sobram indecisão e incoerência.
                Ademais, Marina já está sendo enredada pelas malignas teias de Fernando Henrique Cardoso, o político mais cínico da história do Brasil e jihadista declarado contra o Lulo-petismo. Um dos “intelectuais” dessa gangue, Diogo Mainardi, já acenou que “é Marina, mas só até a posse, mostrando claramente a intenção deles. O ex-presidente já deixou Aécio à míngua, bandeando para o lado da candidata do PSB. Visa ao poder a qualquer custo na guerra que decidiu travar. Que se danem os aliados.

                Haja boa companhia, como se já não bastassem Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes. Marina seduziu os grão tucanos por que é a cara deles. Só falta agora o Lobão, ícone da “genialidade” das redes sociais. Não há nem haverá “nova política” com Marina Silva. Seu programa de governo, além de obsoleto, é vago e contraditório. É impossível “governar com todos” conforme ela presume e propala. Será o retorno do tucanato e do nefando neoliberalismo, dessa vez disfarçado na cândida imagem de uma presidenta com jeito de santa e pecha de novidade. Nada mais conveniente.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

“DEFENDEREI OS VALORES DA FAMÍLIA”. MAS DE QUE FAMÍLIA?

            Chama a atenção o número de candidatos, aos mais diversos cargos eletivos, que pregam como lema de campanha a “defesa da família” ou, ainda mais específicos, “a defesa dos valores da família”. Diante disso, vale a pergunta: Que espécie de família estão anunciando seus ferrenhos defensores? O tema desafia uma análise, sobretudo de ordem constitucional, mesmo que de forma breve, do que se entende juridicamente sobre a família (ou famílias) nos tempos atuais.
                Não precisa muita perspicácia para reparar que a família à qual esses candidatos se referem é a família da visão conservadora (ou reacionária), com bases amplamente religiosas e fundadas em ideias arcaicas. Pugnam por valores unilateralmente escolhidos para caracterizar aquilo que entendem por família e assim angariar eleitores, bem como muitos desses candidatos (pastores, notadamente) já fizeram em suas igrejas. Distanciam-se dos mandamentos constitucionais e almejam a implantação de uma nociva teocracia.
                Descolam sua visão, outrossim, de que a família moderna (ou pós-moderna) não tem cariz exclusivamente religioso ou base novecentista e sim, e sobretudo, matriz e proteção constitucionais. Seus alicerces não estão fundados em ordens conservadoras e reacionárias. Muito ao contrário, aliás. Os fundamentos constitucionais da família, são o afeto, a ética, a solidariedade e a dignidade, valores de raiz constitucional e humanista, indiscutivelmente. O reconhecimento jurídico do que é família, merecedora de especial proteção do Estado, como dispõe nossa Carta Magna, se dá com base nessas premissas.
                Note-se que a falta da leitura constitucional do que significa juridicamente a família e de quais entidades podem ser assim reconhecidas, torna míope a visão desses candidatos que insistem em considerar como família e, via de conseqüência, como única permeada por valores que devam ser protegidos, apenas aquela família conservadora, calcada no matrimonialismo, no patriarcalismo, na hierarquização, na heteroafetividade, e ao considerar a família (deles) uma instituição fim em si mesma.
                Cumpre informar que a família atual possui novos paradigmas, alguns até incompatíveis com as características da família “defendida” na campanha eleitoral. Hodiernamente a família é pluralizada, sendo reconhecidas novas entidades familiares, tanto de modo expresso na própria Constituição da República (união estável e monoparental) como judicialmente (homoafetiva, anaparental, mosaico entre outras).
                Além disso, perderam a rigidez hierárquica e a desigualdade interna, bem como ganhou espaço inexorável em seu seio a socioafetividade. A família deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser um instrumento para o desenvolvimento de seus membros, independentemente de sua conformação ou do sexo de seus componentes devendo, inclusive, atender à sua função social e sofrendo com mecanismos de intervenção pública em caso de descumprimento.
                Essas novas famílias (ou mesmo as antigas com nova formação) entram também na pauta da campanha desses candidatos que defendem os “valores”? Aparentemente não, o que expõe, às escâncaras, o viés preconceituoso e o conservadorismo que o direito não se presta a manter, felizmente. Convém ainda lembrar a esses incautos apóstolos da moralidade e dos supostos (“reais”) valores da família, caso eleitos, o princípio da proibição do retrocesso, informador do direito constitucional da família, que não admite que conquistas já reconhecidas e sedimentadas sejam apagadas.

                Portanto, defender a família e seus valores dentro dessa nova perspectiva, vai muito além do que supõem esses arautos de uma duvidosa ética familiar e de um modelo ”padrão” de família. E o direito já vem fazendo essa defesa de há muito. Os “verdadeiros valores” da família não estão se desfazendo como pregam. O difícil, para muitos, é perceber (e aceitar) que as coisas mudam. Seria imperioso que postulantes a cargos públicos conhecessem um mínimo do Direito antes de anunciar suas “propostas”.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

'AERO' NEVES

               Tucanos, como a grande maioria das aves, voam. Os tucanos da política brasileira – apelido auto-escolhido pelo PSDB – há tempos deixaram o fio dos muros (quando perderam o governo) e passaram a realizar muitos voos, normalmente de ataque, quase sempre infundado, odioso e irresponsável, contrariando a própria natureza do animal, pacato e quieto. Coisas da política.
                Em Minas Gerais os voos tucanos, na humana acepção da palavra, ou seja, por intermédio de aeronaves, se mostraram extremamente confortáveis, sobretudo para os parentes do ex-governador mineiro e candidato tucano à presidência Aécio Neves. Foi descoberta a construção, com recursos públicos, na modesta cidade de Cláudio, onde têm fazendas, de um aeroporto, “administrado” pela família do ex-governador. A “chave” do local (público) fica sob os cuidados de um tio de Aécio. Incrível...
                Não bastasse o, no mínimo suspeito, aeroporto da pequena Cláudio (25.600 habitantes em 2010 segundo o IBGE), de insondável importância pública e em que foram gastos quatorza milhões de reais (!!!), foi ainda descoberto que, também com verba do estado, foi erguido um outro no menor e menos conhecido município de Montezuma (7.400 habitantes em 2010 segundo o IBGE), também em Minas. Em comum entre os dois, além da desnecessidade evidente, há o fato de que nesta cidade a família de Aécio também possui propriedades.
                A impessoalidade é princípio constitucional da administração pública, assim como a supremacia do interesse público sobre o particular. Aécio parece (ou finge) não saber disso. As Minas Gerais, por essência e por natureza, nos presenteiam eventualmente com “preciosidades”. Tais escândalos, assim como o ‘mensalão mineiro’, pai do outro ‘mensalão’, que eles tentam abafar, demandam uma explicação cabal, antes que essas práticas se transfiram para o plano nacional. Felizmente a vitória dos tucanos nas eleições presidenciais é improvável.
                Depois de mais de dez dias de silêncio (talvez na espera de ouvir de alguém o que deveria dizer sobre o fato) o ex-governador se manifestou e disse que realmente usou o aeroporto de Cláudio umas três ou quatro vezes. A indefinição no número e a conhecida cara de pau do político podem nos deixar elevar as marcas a utilizações maiores. Ele se defendeu, julgando a situação como um “equívoco” de sua parte. Curioso, quando a falha ou o ilícito é cometido pelos outros candidatos ele chama de escândalo...
                Tais “realizações” trouxeram à lembrança do signatário um fato passado aqui. Cheguei a Cacoal há sete anos e me lembro do empenho e da luta da COPAHRC para que tivéssemos um aeroporto em nossas paragens, afinal, somos uma das maiores e mais importantes cidades de Rondônia. Demorou muito, exigiu esforços hercúleos, mas saiu. Acaso o senhor ‘Aero’ Neves ou sua família possuíssem propriedades por aqui, talvez as dificuldades tivessem sido bem menores.
                A falta de propostas e de programas da oposição vai transformar a campanha dos tucanos em um vendaval de ataques, já que não têm nada pra apresentar e contam com o suporte dos impérios da mídia. Agora, com um telhado de vidro como esse, vai ser difícil sustentar o contragolpe. Talvez seja a hora de repensar a estratégia e tentar apresentar uma agenda e um programa para o país. O povo não é tão idiota quanto eles pensam.

Obs: a citada fazenda em Cláudio já foi flagrada em 2009 com trabalho escravo. Nada mal para um postulante à presidência de um país...